Zero Zero Zero

Zero Zero Zero de Roberto Saviano

Zero Zero Zero de Roberto Saviano

Estava curioso com o alvoroço que se formou ao redor da vinda (no final frustrada) do italiano Roberto Saviano à FLIP de Paraty, que aconteceu no início do mês.

FLIP é a Feira Literária Internacional de Paraty, no Rio de Janeiro, que costuma reunir escritores dos mais variados estilos, que fazem mesas redondas, leituras a céu aberto, tudo naquele clima paroquial, largadão, bem ao estilo interior. Uma feira descolada.

Bom, o fato é que o tal Roberto Saviano cancelou de última hora sua visita à Feira por motivos de segurança. Não que ele seja um cara paranoico, mas o fato dele ter escrito um livro que desvendou os segredos das máfias internacionais de drogas ilícitas fez da cabeça dele um belo prêmio, e hoje Saviano carrega esse fardo de viver vigiado por seguranças 24h por dia, sem muita liberdade para ir e vir, mais ou menos como o Edward Snowden – guardadas as proporções.

Decidi comprar o tal livro famoso do autor, cujo título é exatamente este: Zero, Zero, Zero. O começo é arrebatador, um tapa na cara do leitor, e muito bem dado. Depois a coisa vai ficando mais monótona. O livro gira ao redor da produção, do tráfico e do consumo de cocaína, que ele chama de petróleo branco.

O que me chamou a atenção – e eu já mencionei nisso noutra página aqui do blog – é o efeito bastante similar da cocaína em relação aos antidepressivos modernos. Pra começar, amico mio, o nome correto é Cloridrato de Cocaína. Vou copiar um trechinho do livro aqui para matar a sua curiosidade.

“O neurotransmissor foi reabsorvido, os impulsos entre uma célula e a outra foram bloqueados. É aqui que aparece a cocaína. Ela inibe a reabsorção dos neurotransmissores, e suas células estão sempre acesas, como se fosse Natal o ano inteiro, com as luzinhas cintilando 365 dias sem parar. Dopamina e noradrenalina: assim se chamam os neurotransmissores que a cocaína ama loucamente e que não gostaria nunca de perder. A primeira é a que te permite ser o centro da festa, porque agora tudo é mais fácil. É mais fácil falar, é mais fácil paquerar, é mais fácil ser simpático, é mais fácil sentir-se querido. A segunda, a noradrenalina, tem uma ação mais sub-reptícia. Em torno de você tudo se amplificou. Cai um copo? Você ouve antes dos outros. Uma janela que bate? Você percebe primeiro. Te chamam? Você se vira antes de terem pronunciado por completo seu nome. É assim que funciona a noradrenalina. Aumenta seu estado de vigilância e de alerta, o ambiente a seu redor se enche de perigos e de ameaças, se torna hostil, você sempre espera sofrer um dano ou um ataque. As respostas de medo-alarme são aceleradas, as reações imediatas, sem filtro. É a paranoia, sua porta escancarada. A cocaína é a gasolina dos corpos. É a vida elevada ao cubo. Antes de te consumir, de te destruir. A vida a mais com que você parece ter se presenteado, você pagará com juros de agiota. Mais tarde, quem sabe. Porém mais tarde não conta nada. Tudo é aqui e agora”.

Perdão, Saviano, por reproduzir sem te consultar. Mas foi só um trechinho! Hehehe! Eu comprei o livro digital na Amazon – sai mais barato e chega na mesma hora no seu tablet ou leitor digital. Quem se interessar, é fácil de encontrar.

Horizonte turvo

Horizonte_sombrio

Lá se vão 23 dias desde que interrompi por completo qualquer dose de Venlafaxina. Nada, niente, nothing, rien de rien.

Perspectiva de melhora? Quem sabe até as Olimpíadas – é como me sinto ultimamente.

Preocupa-me, acima de tudo, não as dores de cabeça, a apatia, as ondas de calor que me acometem nas noites e me impedem de dormir, mas a saúde mental.

Para mim, é facilmente perceptível que meu cérebro já não funciona como antes. Tenho tido dificuldades em raciocinar, concentrar-me em pequenas tarefas, escrever – sim, e que tortura é me sentar em frente ao computador e não ver as palavras fluindo como antes! Sou uma estaca fincada na cadeira.

A memória também vai de mal a pior; desde quando retornei de viagem e me esqueci por completo da senha que abria o portão do prédio onde moro, não há sinais de melhora.

No supermercado, cruzei com uma colega de trabalho e simplesmente não a reconheci. Trocamos sorrisos, ela veio falar comigo, batemos papo sobre qualquer coisa, desejei-lhe boas festas e me despedi, perplexo, não sabia quem era. Recordo-me que a ficha caiu umas boas 4 horas depois, já em casa, quando, depois de ruminar por todas aquelas horas, resgatei seu nome de algum canto obscuro da cabeça. O engraçado é que antes estava certo de que ela era minha professora de literatura do colegial, e me perguntava o que diabos ela estava fazendo em minha cidade.

Isso sem contar as inúmeras vezes em que tenho largado objetos pela casa e depois me esqueço de onde estão. Ou como noutro dia fui ao shopping center – essa é realmente cômica –, paguei o cartão do estacionamento e, ao chegar ao carro, cadê a droga do cartão? Procurei nos bolsos, procurei no chão pelo trajeto até o carro, nada. Simplesmente se escafedeu.

É tão difícil descobrir relatos análogos em português na internet. As poucas páginas não são nada em comparação à tonelada de informação em língua inglesa, pessoas que descrevem os efeitos colaterais da Venlafaxina há anos e anos em diversos fóruns internet afora… Aparentemente os psiquiatras tupiniquins não entendem muito da coisa – as poucas advertências quanto ao uso irrestrito da Venlafaxina encontrei em língua inglesa apenas.

Um mix de alívio e preocupação toma conta de mim ao ler certos relatos na internet. Qualquer pessoa em sã consciência que tenha lido uma fração das histórias de terror documentadas em diversos sites trataria de ficar a milhares de quilômetros de distância da Venlafaxina. Acho que evitaria até beber água da torneira com medo de que viesse algum resquício dela pelo encanamento.

Ontem mesmo, preocupado com a saúde mental, dei uma pesquisada no Google sobre “effexor brain damage” e veio-me uma página bastante rica em depoimentos nos resultados, chamada ConsummerAffairs.com, com todo o tipo de gente detonando a Venlafaxina e seus efeitos colaterais. A página é um repositório de críticas – ao estilo do ReclameAqui.com.br – em que as empresas têm a chance de oferecer alguma resposta ao consumidor insatisfeito.

Não fiquei espantado em saber que o laboratório que fabrica o Effexor (nome comercial com que a Wyeth-Pfizer vende a droga nos EUA e no Reino Unido) não dá a mínima para os consumidores, e sequer tem cadastro no site para responder às críticas. Toda a receita de publicidade dos cretinos vai para o marketing com os psiquiatras, provavelmente. A página de venda com desconto do Efexor no Brasil até pede o CRM do médico que lhe indicou a droga! Seria um programa de bonificação? A Wyeth-Pfizer patrocina congressos de psiquiatras no Brasil? Deveriam imprimir um aviso imenso de alerta nas caixinhas dessa droga, porque aparentemente as bulas não são tão informativas e os psiquiatras muito menos.

Enfim, continuando. Vejam só o trecho de um relato de uma usuária, na página de reclamações do Effexor (Venlafaxina) – http://www.consumeraffairs.com/rx/wyeth.html:


“Durante meu tratamento com o Effexor XR, eu me tornei mais deprimida, chorosa, confusa, e tive complicações relacionadas a perda de memória e falta de concentração. Sentia-me como se estivesse sempre 5 segundos atrasada. Eu permanecia parada em qualquer lugar com um olhar vazio, me perguntando o que eu estava tentando fazer. Eu não encontrava as palavras para me expressar. Às vezes elas estavam na ponta da língua. Eu sabia o que queria dizer, mas não conseguia encontrar qualquer palavra. Eu costumava ser bastante organizada, mas agora não mais. Eu deixo algum papel, as chaves, qualquer objeto num canto e inexplicavelmente, em uma fração de segundo, me esqueço onde foram parar.
Meu supervisor me dava orientações no trabalho e eu não era capaz de manter o foco ou seguir as instruções que me foram dadas. Mesmo agora, depois de dois anos longe do  Effexor, é muito difícil manter o foco, e manter a memória de curto prazo é algo desafiador. Eu continuo com o mesmo problema até hoje. Eu acredito que o problema de memória (não ser capaz de manter o foco, não sendo capaz de compreender instruções e executá-las) e a doença articular degenerativa (artrite) são o resultado de tomar o Effexor XR por tantos anos.
É muito triste que existam tantas pessoas sendo afligidas pelo Effexor XR, e o laboratório e nem ninguém faz nada a respeito. Esta droga é um demônio do inferno. Ajudem-me, por favor. Isso tem que parar! Se alguém desenvolveu doença degenerativa das articulações (artrite) ou já teve uma substituição cirúrgica do quadril, enquanto ou depois de tomar Effexor XR ou Effexor, entre em contato comigo”.
– Brenda, de Duncanville, Texas (EUA), 05/12/2012.