Original ou genérico

Industria Farmaceutica RealNo último final de semana estive no Rio de Janeiro e tive a oportunidade de conversar com um amigo que é médico psiquiatra residente num hospital da cidade.

Interessado no assunto, aproveitei para perguntar sobre as práticas recônditas de médicos e laboratórios na ciranda financeira das drogas psiquiátricas, e o que ouvi era mais ou menos o que esperava: os médicos são assediados pelos laboratórios, recebem amostras para repassarem aos pacientes e alguns laboratórios chegam a oferecer aos profissionais viagens, ajuda de custo e outras coisas do tipo.

Uma das coisas que prendeu minha atenção no papo foi quando este meu amigo mencionou um caso de um colega seu: um representante comercial de um tal laboratório apareceu no seu consultório particular oferecendo custear a reforma da clínica e também uma viagem a um congresso com tudo pago, pelo fato do médico ser um prescribente frequente de tal remédio. O intrigante nesta história não é a oferta pouco decorosa do representante, mas o controle que o laboratório tem de quem prescreve tal ou qual droga – uma espécie de cabresto a controlar o médico.

De novo, não foi algo surpreendente: eu mesmo já havia notado este controle, inclusive tendo-o descrito num post do blog há uns tempos, quando escrevi que determinadas drogas dão um desconto absurdo no preço final se e somente se o paciente se cadastrar no seu site e informar dados pessoais e – bingo! – nome e CRM do médico.

Antes de recriminar médicos e laboratórios, deve-se reconhecer que esse modus operandi não é exclusivo da indústria farmacêutica e que nem todos os médicos vendem sua reputação por dinheiro.

Vejo muita gente aí preocupada com as intenções do médico que não quer que o paciente troque de remédio, ou que continue com o tratamento embora o paciente queira interrompê-lo. Calma lá, gente, o médico não é seu inimigo. A preferência pela droga original – em vez das marcas genéricas – é quase consenso, e nós mesmos agimos assim com quase todo produto disponível no mercado.

Quando chega a Páscoa, você parte para o supermercado e fica horrorizado com os preços dos ovos e com a disparidade de preço entre as marcas, e por vezes se pergunta, mas porra, é tudo chocolate, por que tanta diferença de preço? E muitas vezes, pasme, é a mesma fábrica que produz ovos para uma e para outra marca, mas o produto final tem preços muitas vezes bastante diferentes! Pois é, com remédio é a mesma coisa. No preço do remédio está embutido a credibilidade do laboratório, o modo de produção da droga, a confiança do consumir e outras variáveis.

Eu considero que o maior problema dos psiquiatras não é esse relacionamento nebuloso com os laboratórios, mas o fato de subestimar os efeitos colaterais da introdução e do desmame dos antidepressivos.

Um psiquiatra que passou pelas agruras do desmame da Venlafaxina vai pensar duas vezes antes de receitar a droga para um próximo paciente.

Resumo da ópera: remédio é como ovo de páscoa. Seu médico pode indicar um ou outro, mas quem decide qual tomar é você. Se seu médico é teimoso, converse com ele. Se não der certo e você tiver condições, troque de médico.

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